Hoje me dei conta de que este blog não é mais um espaço para falar sobre emagrecimento. Os meus desafios e preocupações mudaram e quem frequenta este blog quer muito mais do que dicas para entrar num biquíni. É um sinal de amadurecimento tanto meu quanto de vocês. Como acontece com todas as pessoas, minha vida mudou bastante nestes últimos dois anos. Encaro com naturalidade. Não é fraqueza minha ter desistido de manter o peso leve, mas tenho andado distraída, tentando achar outras coisas a que me agarrar nesta vida, como carreira, amor e felicidade. É bem verdade que não ando satisfeita com meu corpo, os quilos a mais às vezes me incomodam, sim! E também não é fácil lidar com as expectativas dos outros em relação ao meu sucesso e as especulações sobre o meu fracasso. O fato é que tenho pensado muito sobre o que a Laiza me escreveu num lindo comentário aqui no blog, que li só hoje.
O que me faz realmente feliz todos os dias?
Minha família e amigos e a relação que consegui tecer com eles é de onde consigo extrair o máximo de felicidade cotidiana. Cada relacionamento é especial e é construído nos detalhes. Nem sempre consigo ser tão amorosa quanto deveria e nem sempre consigo estar presente nos momentos importantes de cada um deles, mas alimento nossos laços com delicadeza.
Portanto, para mim, felicidade é me relacionar bem com as pessoas, entregando o meu melhor a cada dia. Quando este aspecto está equilibrado na minha vida, me sinto realmente plena - e isso inclui eu me olhar no espelho e gostar do que vejo. Se tenho a sensação de que está faltando amor, ninguém me arranca um sorriso sincero. Inclusive, a educação alimentar à mesa, que aprendi em rigorosos seis meses de dieta, parece um aprendizado distante. Passo a ignorar comidas saudáveis e preencher a geladeira com tudo o que é porcaria boa e gorda.
Alimento é instinto, assim como o prazer.
Comida é prazer.
Comer é experimentar diferentes sensações com o paladar, o olhar e o olfato.
Não estudei psicologia e só frequentei terapia uma vez, mas arrisco a dizer que comer compulsivamente, ou querer comer coisas gulosas, é a forma mais simples de ter prazer sem precisar buscar algo mais profundo, como reconhecimento do que provoca essa vontade súbita de encher o prato de sabores incríveis. Por isso, a comida está tão relacionada à memoria. Uma comida sensorial é aquela que nos remete aos aromas e aos sabores de momentos felizes. Comer alguns alimentos (para mim, brigadeiro, bolo de chocolate, sorvete, massa caseira) é ativar a memória sensorial. Instintivamente experimento o mesmo prazer daquele breve momento em que fui feliz.
(O bombom aí da foto, que virou motivo de protesto por parte do meu cunhado e minha irmã mais nova por ser caríssimo, é o bombom que lembra minha infância e as viagens pela serra com a família. Obviamente, quando minha irmã do meio e eu pagamos caro para saboreá-lo novamente, fomos repreendidas. Para eles, aquele bombom não representava nada, mas para nós era especial e delicioso, uma recordação de tempos felizes)
Sei exatamente quando estou apaixonada por uma pessoa. É quando tenho vontade de comer aquilo que experimentamos juntos ou, então, aquilo que sei que a outra pessoa gosta.
Amar engorda.
Engorda porque temos cada vez mais vontade de partilhar o prazer. Tem coisa mais especial do que reunir a família ao redor de uma mesa num domingo ao meio dia? Celebrar a vida é compartilhar a comida e, consequentemente, risadas e carinho.
Sou contra os excessos, mas não posso negar que experimento-os. Ora porque estou em profundo conflito com minhas vontades (queria um amor e não tenho ou queria menos estresse no dia a dia. A comida surge como prazer instantâneo, uma válvula de escape), ora porque estou muito feliz para me preocupar com calorias (no churrasco de domingo com a família, na balada com as amigas, no jantar de sexta à noite com um lindo homem de olhos cor de mel hipnotizantes).
Ainda não encontrei uma fórmula de equilibrar esse meu desejo de felicidade, de viver a vida intensamente, e não escapar da dieta. E às vezes realmente me questiono se preciso fazer isso, ou deveria me amar ainda mais e mais e ignorar a balança. Continuo na busca de harmonia em todos os aspectos.
Ps: o momento sinaliza uma nova contracultura. Já perceberam que anda surgindo uma legião de gordinhos cheios de discurso, tentando se afirmar diante dos padrões estéticos vigentes? Quer dizer que estamos tão fartos de tantos preconceitos e tão obsecados por uma beleza artificial, que é preciso mesmo repensar alguns conceitos sobre estética e beleza. Saúde não se discute, mas seria interessante refletir mais a respeito dos diferentes estilos de vida e tentarmos diminuir as espectativas em relação ao que se pode extrair do corpo. Aliás, volto a lembrar que o corpo é algo realmente mágico. É nosso instrumento mais precioso de sentir a vida. Essa é a sua função. O resto é bobagem.